| |
Entrevista realizada com Andrea Tostes, psicóloga
do Tribunal da Justiça de Santa Catarina.
ENCONTROS: Qual o papel
do psicólogo na atividade de Mediação Familiar?
ANDREA TOSTES: O psicólogo que atua na
Mediação Familiar oferta às pessoas que procuram
o Serviço uma escuta diferenciada, de outros profissionais,
um acolhimento, no sentido de que as pessoas sintam-se a vontade
para expor seus conflitos, na certeza que o que está sendo
compartilhado não será desqualificado, negligenciado
e tampouco exposto a outras pessoas – a questão da
ética e do sigilo do psicólogo. Além disso,
dentro deste ambiente mediador, como podemos falar, o psicólogo,
propiciará um ambiente onde o casal (via de regra) possa
refletir sobre sua vida em comum, seus afetos e sua dinâmica
familiar .
O psicólogo mediador não é terapeuta, não
é julgador, não é conciliador, mas um propiciador
do diálogo, do estabelecimento ou restabelecimento da comunicação
entre duas (ou mais) pessoas envolvidas naquele momento.
ENCONTROS: Em se tratando
de um trabalho multidisciplinar, em que circunstâncias o
psicólogo interage com outros profissionais? Como você
avalia a importância destas interações dentro
do processo como um todo?
ANDREA TOSTES: As pessoas que procuram a mediação
familiar que são realizadas no espaço físico
do fórum, chegam com muitas dúvidas quanto aos seus
direitos e deveres judiciais. Por exemplo, querem saber se o genitor
(pai) pode ver os filhos se não paga pensão alimentícia.
Neste momento necessitamos do profissional do Direito que nos
auxilie nestas informações. Neste momento e em muitos
outros o sucesso do trabalho de Mediação reside
na interdisciplinaridade dos profissionais. Aqui em Joinville
contamos com profissionais do Direito e da Psicologia, em outras
comarcas contamos também com Assistentes Sociais e Pedagogos.
No caso da Mediação Familiar da Comarca de Joinville,
se o casal chega a um consenso, um acordo, o serviço ingressa
judicialmente com o acordo, sem qualquer custo. Para este ajuizamento
é imprescindível a presença do advogado,
operador do Direito. Cabe ressaltar que temos todos os dias um
advogado de plantão no Serviço de Mediação
Familiar para sanar dúvidas, revisar as ações
e dar o encaminhamento jurídico necessário.
ENCONTROS: Da perspectiva
do psicólogo, quais são os objetivos da Mediação?
ANDREA TOSTES: Elencamos os seguintes objetivos:
- Desmistificar a imagem de que no fórum só há
espaço para soluções de conflito impostas
pelo operador do Direito, ou seja, a decisão de um terceiro
para questões que são de foro íntimo. Assim
propondo uma solução das pessoas envolvidas, sem
a necessidade de julgamento e imposição.
- Desmistificar a imagem do psicólogo enquanto profissional
que atende louco, que advinha os pensamentos, e outras fantasias
culturalmente difundidas.
- Propiciar uma escuta mútua (as partes) e um diálogo
que objetiva um entendimento entre as partes envolvidas num litígio.
- Observar os pontos nodais que estão impossibilitando
as partes de primeiro entender e assim buscar soluções
possíveis para seus conflitos.
Considero que existam outros objetivos, mas se conseguirmos alcançar,
no nosso atendimento parte dessas propostas elencadas avalio que
estamos no caminho de um exercício profissional da psicologia
de qualidade.
ENCONTROS: Qual
a avaliação que você faz do trabalho realizado
até o momento?
ANDREA TOSTES: O Serviço de Mediação
Familiar de Joinville foi totalmente reestruturado desde o espaço
físico até a dinâmica dos trabalhos. Até
maio deste ano atendemos mais de 100 pessoas e destes casos atendidos,
ingressamos apenas com 16 ações. Nas reuniões
que fizemos de treinamento e discussão de casos com os
mediadores, percebemos que a demanda das pessoas que procuram
o Serviço de mediação Familiar reside na
necessidade de serem ouvidos e de que uma terceira pessoa estimule
uma conversa entre os envolvidos, resultando assim que grande
número de casos finalizam em proporcionar o restabelecimento
do laço conjugal.
Na minha avaliação, o maior sucesso do Serviço
de Mediação Familiar de Joinville reside no atendimento
de qualidade, das pessoas que possuem parcas condições
econômicas, e que não encontravam um espaço
onde pudessem ser ouvidas e a partir desta escuta serem convidadas
(pois a mediação não é imposta, só
é feita com a anuência das partes envolvidas) ao
diálogo e a busca de alternativas para a solução
de seus conflitos.
ENCONTROS: É possível
falar em vantagens e desvantagens neste projeto? Como seria?
ANDREA TOSTES: Acredito que o Serviço
de Mediação Familiar tem várias vantagens,
elenco neste momento cinco pontos:
1. A rapidez no ajuizamento da ação, por exemplo
quando o casal chega a um acordo quanto a guarda dos filhos, visita,
o próprio Serviço de Mediação formaliza
através de uma petição e requer a homologação
judicial, sempre supervisionado por um profissional do Direito.
2. Neste mesmo caminho, toda a prestação de Serviço
na Mediação Familiar é gratuita.
3. A questão do sigilo de todos os profissionais envolvidos
4. A busca da solução dos conflitos por decisão
conjunta do casal, ou seja, não há imposição,
tampouco julgamento.
5. O destaque para a importância da manutenção
do vínculo entre pais e filhos, mesmo que haja a separação
do casal, ou seja, a ruptura conjugal não implica no distanciamento
dos filhos com aquela parte que não detém a guarda.
Quanto às desvantagens, podemos destacar, por exemplo que
disponibilizamos no momento, mediadores apenas no período
vespertino, talvez dificultando o acesso para algumas pessoas.

O processo de mediação inicia na recepção,
onde a secretária realiza a triagem, também chamada
de pré-mediação.
Lançado pelo Tribunal de Justiça
de Santa Catarina o projeto de Mediação Familiar
em Joinville sofreu reestruturação em fevereiro
de 2007 e está funcionando em novo formato. O objetivo
principal é atender famílias que procuram o
Fórum da cidade para resolução de conflitos
familiares, envolvendo casais e filhos. São atendidas
pessoas que recebem por mês até, no máximo,
três salários mínimos e que não
tenham processo tramitando. E o psicólogo tem um papel
importante nessa proposta.
A mediação tem várias etapas. Primeiramente,
o casal ou uma das partes sente a necessidade de ajuda e procura
por um dos responsáveis do projeto. Essa pessoa será
ouvida e o mediador (que terá prévio conhecimento
do caso) agendará as seções necessárias
para que o casal converse. Três caminhos poderão
ser seguidos por conta da mediação: o da reconciliação;
o da homologação, por parte de um juiz, do acordo
feito entre as partes (ainda no processo de mediação);
ou o da resolução no litigioso (quando não
há acordo entre os dois). Neste último caso
os envolvidos são encaminhados para a Associação
Catarinense de Ensino – ACE para atendimento gratuito
na assistência judiciária prestada por estudantes
da Faculdade de Direito, orientados por professores. Eles
precisarão de advogados para que o processo tenha continuidade.
A equipe da Mediação Familiar conta com quatro
mediadores sendo dois psicólogos e dois advogados,
além de dois estagiários, sendo um do curso
de psicologia e outro de direito. Todos são voluntários.
Dentro deste cenário o psicólogo tem papel de
facilitador, mediando os conflitos que aparecem (assim como
os demais mediadores). De acordo com a psicóloga e
coordenadora da Mediação Familiar em Joinville,
Andréa Fabeni Tostes, “este é um espaço
de escuta, uma oportunidade para as pessoas falarem e para
descobrir onde está o nó do conflito. Não
é local para terapia”. A partir disso constrói-se
uma solução que parte dos próprios casais
o que pode envolver guarda e regulamentação
de visita dos filhos; divisão de bens; questões
de divórcio. O psicólogo, portanto, é
um terceiro inserido no meio de dois não para tomar
decisão, mas sim para facilitar a mesma. Ele objetiva
que o conflito seja elaborado pelas partes.
A procura maior é por mulheres e, de acordo com Tostes,
o objetivo é chegar aos bairros. “Nossa perspectiva
é ir para as comunidades como mediação
volante em intercâmbio com a equipe do Conselho dos
Direitos Humanos e das lideranças locais”, disse.
Desde fevereiro de 2007 foram atendidas 106 pessoas, sendo
que 62 mediações foram canceladas e as demais
tiveram alguma resolução, seguindo um dos três
caminhos possíveis.
Não há custos para os atendidos e a duração
da mediação é variável, de acordo
com cada caso. As seções levam em torno de uma
hora. Para contatar os voluntários do projeto basta
ligar no fone 3461-8500, que atendem no Fórum de Joinville.
A juíza coordenadora da Mediação Familiar
na cidade é Maria Paula Kern.
Carola Cristofolini
Jornalista (SC 01905 JP) e acadêmica de Psicologia na
ACE |
|
|
|